O GRAMÁTICO AUTOMÁTICO
"Speech itself, indeed, would become almost impossible if the grammarians could follow their own rules unfailingly, and were always right."
H.L. Mencken, The American Language (1921) Grammarians and Their Ways
Eu não escrevo muito bem e tenho pena. Além de pena tenho alguma inveja de quem escreve, como do JV que tem uma sintaxe cuidada ou do FMS que tem mais graça que eu. Mas há, nos gramáticos, uma loucura estalinista que assusta qualquer um, especialmente quem escreve mal como eu. É o caso de LDA, que amigas minhas garantem ser uma jóia de pessoa.
No
My Moleskine, escreve LDA uma carta-lição sobre a palavra "humanitário". Curiosamente o texto é tudo menos humano. São duas ou três observações, que acabam por ser quatro, que passam ao
lado da
discussão sobre a sintaxe e se atiram de frente a pedir uma polémica. Vamos então fazer o gosto.
Mas o que quer esse cabo do grupo dos forcados amadores do Lácio?
LDA é um reacionário, o seu ultra-conservadorismo é de uma higiene totalitária. Nem por acaso cita o bom frade menor Roquette, autor do
Thesouro da Mocidade Portugueza, que ensinou gerações a escrever ofícios e cartas de amor indistintamente. Como todos os reacionários, apega-se a uma língua pura, que nunca existiu. Por vezes, socorre-se de autores consagrados, esquecendo que os ditos eram na sua altura criticados por não serem gramáticos.
LDA é violento e pedante. Ora, padecendo eu mesmo desta última característica, custa-me quando a vejo associada à violência, mesmo quando é generosamente gratuita. No alto da sua cátedra, com uma vaidade irritada e irritante, LDA ataca com gosto mas desprovido de bom senso.
LDA tem um certo estilo, antigo como a língua que usa e adora, e polemiza como se nos escrevesse desde S. Miguel de Ceide. Mas, claro, sem o perigo de ir preso ou derramar o sangue em duelo. O próprio.
Para LDA a origem latina da palavra "
Humanitário" legitima o seu uso, mesmo que a recepção tenha chegado através do francês. Podemos então utilizar
Avenida, galicismo tão odiado por Sá Nogueira, porque deriva de
Ad Venire?
E se
Arcabuz deriva do neerlandês haakbus, também é verdade que a origem está na junção do germânico Haak (hakan, gancho) com o latino tardio Bus (Buxis, caixa). Deveremos, assim, aspar apenas a "Arca" e seguir usando o "Bus"?
E se LDA não aceita assim um estrangeirismo como Arcabuz, mesmo após centenas de anos de uso (desde a "
Gramática da linguagem portuguesa", (1536) de Fernão de Oliveira, como LDA saberá se possuir o Machado), como será que chama ao fruto da oliveira?
No entanto, a frase mais curiosa da prédica é a seguinte:
"
Os estrangeirismos, por contrários ao génio da língua portuguesa (que
provém do grego e do latim, e não do francês, ou assim) devem ser
aspados sem dó e sem piedade. Aspados, digo bem"
Diz bem. Diz LDA. Diz que sim. Podemos pois presumir que não se deve usar palavras que não derivem do grego ou do latim? Podemos, assim, expungir, "sem dó nem piedade" a própria palavra "aspado"? Que provém, como saberá, do gótico "haspa"? Um barbarismo em todos os sentidos?
Como se vê, por esta frase final de LDA, não eram apenas os germânicos que utilizavam instrumentos de tortura, como as aspas. Ainda há quem use a gramática da mesma forma. Ao menos o corrector automático não insulta, já o gramático...
Com todo o respeito e consideração,
DBH